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 Parto Seguro: direito de toda gestante  

Victor Hugo de Melo
Presidente da SOGIMIG


 

Para entender o Parto Seguro, devemos relembrar os preceitos do parto sem dor e o da humanização do nascimento, deflagrados pelo movimento feminista nas décadas de 70 e 80. O Ministério da Saúde apoiou este movimento e, de certa forma, responsabilizou os obstetras pela “desumanização” do parto, como se nós fôssemos os responsáveis pela não participação das mulheres nas decisões tomadas no processo da parturição. Ao mesmo tempo, incorporou um novo profissional no cenário do parto, o enfermeiro obstétrico, que seria menos intervencionista e conduziria mais partos pela via vaginal.

O Parto Humanizado transmutou-se em Parto Seguro, agravando esse equívoco, na medida em que o associou ao parto vaginal. Se, por um lado, a humanização do parto não deve ser associada ao tipo de profissional que assiste a parturiente - obstetra ou enfermeiro -, o Parto Seguro não pode ser vinculado à via de parto - abdominal ou vaginal.

Do ponto de vista fisiológico, o parto vaginal é o ideal, pois esta é a via estabelecida pela natureza feminina. Entretanto, não podemos associar o parto vaginal ao Parto Seguro porque sabemos de situações nas quais a cesariana é a via mais segura para mãe e feto. O que fazer, por exemplo, no prolapso de cordão, no sofrimento fetal agudo ou no descolamento prematuro da placenta, com colo parcialmente dilatado? O que fazer na presença de desproporção céfalo-pélvica diagnosticada no trabalho de parto?

O Parto Seguro envolve o planejamento da gravidez, o acompanhamento pré-natal, a assistência no trabalho de parto e parto, bem como o seguimento no puerpério. Somente esta cadeia de procedimentos pode permitir que o casal tenha um filho com todo seu potencial de crescimento e desenvolvimento preservados, tendo a seu lado a mãe hígida, apta a amamentá-lo e a prover os cuidados que ele demanda.

Não há como prever, com absoluta certeza, o prognóstico de uma parturiente, mesmo as de “baixo risco”. O diagnóstico de parto eutócico somente pode ser realizado após o nascimento. Sabe-se que 10% dos partos de “baixo risco” apresentam complicações, demandando intervenções imediatas e recursos humanos e materiais somente encontrados no hospital. Assim, o único local no qual se pode garantir segurança para mãe e filho, no momento do parto, é a MATERNIDADE.

Metanálise recente (1) demonstrou algumas evidências científicas em relação à assistência ao parto, entre elas: FORTE RECOMENDAÇÃO a favor das doulas, da posição verticalizada e do trabalho em equipe; RECOMENDAÇÃO para admissão nas maternidades somente das gestantes em franco trabalho de parto, e para a condução ativa deste trabalho de parto; RECOMENDAÇÃO CONTRA a episiotomia rotineira, a pressão no fundo do útero no período expulsivo e o funcionamento das casas de parto, por apresentarem taxa de transferência para maternidades de 50% e aumentarem a mortalidade perinatal em quase 90%.

Existem vários fatores que devem ser considerados para explicar as altas taxas de cesariana no Brasil: a má remuneração pela assistência ao parto; a forma de organização dos serviços; os processos judiciais pela não realização de cesariana; a inexperiência em realizar o parto vaginal operatório. Sabemos que estas causas não explicam a totalidade das cesarianas realizadas no Brasil e que muitos obstetras têm banalizado esta cirurgia. Não defendemos estas altas taxas e, tampouco, somos favoráveis ao parto vaginal de forma irrestrita. Distocias de todo tipo podem ocorrer, e o profissional que acompanha a parturiente deve estar habilitado a resolver TODA E QUALQUER INTERCORRÊNCIA que surgir. Assim, a atenção ao parto não pode ser exercida por outro profissional ou fora do hospital, sob o argumento de que, no hospital, as parturientes são submetidas a mais intervenções cirúrgicas.

Devemos empreender esforços para reduzir as cesarianas e outras intervenções no parto, mas isto não pode ficar sob a responsabilidade única dos obstetras. Vamos discutir formas alternativas que atendam às atuais demandas das gestantes, MAS QUE SEJAM SEGURAS, para não colocá-las, e a seus filhos, sob riscos desnecessários. Vamos criar condições nas maternidades para que as famílias possam ter maior participação no parto e para que possamos realizar mais partos vaginais com total segurança neste processo.
 

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